Quando penso nas histórias contadas pelos meus pais sobre a infância nos anos 60 e 70, lembro-me de um tempo em que cada pequena aventura trazia às costas uma dose gigante de autonomia e responsabilidade. Naquela época, a vida parecia mais lenta, mas exigia de quem crescia uma resiliência que agora, tantos anos depois, ainda impressiona.
O que foi a negligência benigna e como moldou a nossa geração?
Naqueles dias, os nossos pais não estavam o tempo todo a vigiar cada passo. Não era por descuido, mas antes uma forma de nos dar espaço para experimentar. Crescemos num ambiente a que hoje se chama negligência benigna, um conceito que descobri há pouco e que conta como essa liberdade relativa criou um terreno fértil para o desenvolvimento emocional. Isso permitia-nos ficar um pouco à seca, aprender a resolver problemas sozinhas, a conhecer os nossos limites, e até a conviver melhor com as frustrações.
Recordo-me de sair para a rua, por vezes até ficava escuro antes de voltar, sem que ninguém telefonasse a perguntar onde eu estava. Essa autonomia, mesmo com os riscos que lhe podiam estar associados, tornou-nos mais fortes. Em Lisboa, nestes antigos bairros, era comum ver grupos de miúdos a inventar brincadeiras na rua, a gerir conflitos sem adultos por perto.
Sete mecanismos de sobrevivência que nasceram da época
O que a psicologia me ajudou a entender é que esta geração desenvolveu sete habilidades que hoje parecem raras. Elas não surgiram do nada, mas da necessidade diária de lidar com a vida sem ajuda constante:
- Alta tolerância à frustração: aprendemos que nem tudo corre como queremos e que é preciso arregaçar as mangas para seguir em frente.
- Autocontrolo emocional: lidar com as próprias emoções era uma tarefa pessoal, porque os adultos nem sempre estavam disponíveis para nos aconselhar.
- Capacidade de resolver problemas: se algo partia, tentávamos consertar. Quando havia uma dificuldade, encontrávamos soluções com o que tínhamos à mão.
- Independência decisória: preencher os dias com as nossas escolhas, mesmo que nem sempre fossem perfeitas.
- Habilidades de negociação: aprendidas no convívio informal, nas trocas entre amigos e nas situações sociais informais.
- Tolerância ao erro: errar era parte do aprender, não um motivo para desânimo permanente.
- Sentido de responsabilidade: carregar as nossas tarefas diárias sem precisar que um adulto estivesse a lembrar constantemente.
Estas competências, resultado direto daquela liberdade com segurança, deram origem a adultos que muitas vezes demonstram uma confiança discreta, uma capacidade de adaptação difícil de igualar.
O contraste com a infância hiperprotegida de hoje
Tenho reparado que agora, em 2026, a forma como cuidamos das crianças é outra. A proteção é apertada, quase a querer blindar cada passo, e o medo das consequências pode criar barreiras que acabam por limitar o crescimento emocional. O que me parece mais curioso é que, apesar das melhores intenções, algumas crianças de hoje não desenvolvem da mesma forma aquelas qualidades preciosas que foram alimento da nossa geração.
Ao querer evitar-lhes a frustração, acabamos por as privar de experiências essenciais, como gerir conflitos ou lidar com o desapontamento. Este equilíbrio complicado entre proteção e autonomia é algo que nos desafia diariamente enquanto pais, tios, ou simplesmente quem se importa com as novas gerações.
Como podemos resgatar esses mecanismos de sobrevivência na prática atual?
Não se trata de voltar ao tempo em que as crianças ficavam horas sozinhas na rua, sem supervisão. É, sim, procurar formas de incentivar a autonomia de forma saudável e consciente. Tenho visto pequenos gestos que fazem toda a diferença no dia a dia:
- Deixar que as crianças experimentem resolver pequenos problemas sem a nossa intervenção imediata;
- Evitar intervir logo em conflitos simples, permitindo que encontrem soluções;
- Estimular a tomada de decisões adequadas à idade, mesmo que isso envolva algum erro;
- Incentivar a responsabilidade com tarefas diárias, trazendo um sentido de propósito;
- Encorajar a visão do erro como parte natural do crescimento e da aprendizagem.
Estas atitudes podem criar um ambiente em que a criança sente segurança, mas também a liberdade para crescer, desafiando-se e aprendendo a aceitar as imperfeições da vida. É um dar e receber que nos inspira a construir adultos mais preparados para os altos e baixos do mundo contemporâneo.
Por que esta reflexão ainda faz sentido nos dias de hoje?
A psicologia reforça que há um meio-termo onde a autonomia e o suporte emocional devem coexistir. Esta combinação é a chave para formar pessoas resilientes sem que sintam abandono. Penso que todas nós, que desfrutámos desta criação à moda antiga, podemos partilhar a riqueza da nossa experiência, ajudando as gerações mais novas a encontrar o seu próprio caminho entre proteção e liberdade.
Assim, este olhar para o passado convida-nos a acolher o presente com uma nova compreensão e a experimentar, hoje, pequenos passos que façam crescer a nossa força interior – aquela que só se constrói com a confiança em nós mesmas e na capacidade de superar os desafios.