Crescer nos anos 60 e 70 traz consigo uma nostalgia mais complexa do que simples memórias de infância. É também um testemunho silencioso do tipo de resiliência que nos parece hoje quase uma peça de museu, tão rara quanto valiosa. A forma como as crianças naquela época foram criadas, entre menos supervisão e mais autonomia, ofereceu-lhes um treino emocional que as nossas crianças de 2026 dificilmente experimentam.
A autonomia invisível que moldava a resiliência
Recordo-me dos relatos dos meus pais e da minha avó, e também de amigas que têm filhos mais velhos, sobre como as crianças tinham mais liberdade para explorar o mundo à sua volta — quer fosse a brincar até ao pôr do sol no bairro, quer fosse a resolver as suas próprias pequenas diferenças sem que um adulto interferisse ao minuto. Esta ausência de intervenção constante criava espaço para que pudessem aprender a lidar com o tédio, a frustração e os conflitos de forma autónoma.
Ao contrário do que se pode imaginar, esta “neglect benign” ou negligência benigna — um conceito que ouvi discutido numa conversa com uma amiga psicóloga — não significa abandono. Era uma presença parental menos intrusiva, onde a criança podia errar, aprender a esperar a sua vez e encontrar soluções para desafios do dia a dia sem apoio instantâneo. E desse treino informal surgia a força interior que hoje chamamos resiliência.
O impacto do brincar livre e da ausência de tutela constante
A psicologia moderna tem observado com interesse essa diferença marcante. Pesquisas recentes associam a diminuição do brincar livre e da autonomia infantil, características das décadas de 60 e 70, com o aumento dos níveis de ansiedade e depressão nas gerações atuais. Por um lado, o acompanhamento constante parece proteger, mas por outro, limita o desenvolvimento da capacidade de adaptação emocional.
Peter Gray, do Boston College, destaca que a redução do tempo de rua se veio traduzir numa menor exposição a experiências reais que obrigavam a criança a lidar com erros, a resolver conflitos ou simplesmente a ficar entediada sem apelo imediato a um ecrã ou estímulo externo. Esta aprendizagem, modesta talvez para muitos, revelava-se ao longo dos anos como uma espécie de ginásio emocional.
As pequenas tarefas que ensinavam a crescer emocionalmente
Foi nesse contexto que muitos desenvolveram habilidades que nem sabiam que estavam a cultivar: gerir pequenas frustrações, negociar com irmãos, cumprir uma tarefa simples sozinhos — por exemplo, ir à mercearia, esperar a sua vez na fila ou ajustar-se às regras de um grupo na escola.
Estas tarefas deixavam espaço para que o autocontrolo ganhasse raízes sólidas. Afinal, para que haja crescimento emocional, é preciso sentir o desconforto do desafio e aprender a superá-lo, sem intervenção constante. A seguir está uma pequena lista do que, hoje, muitos considerariam simples, mas que foram verdadeiros laboratórios emocionais:
- Esperar pacientemente sem distração digital;
- Resolver pequenos conflitos com irmãos e vizinhos;
- Lidar com o tédio sem recorrer a entretenimento imediato;
- Cumprir recados e tarefas sozinho, do início ao fim;
- Ajustar o comportamento para pertencer a um grupo;
Entre superproteção e liberdade: onde encontrar o equilíbrio?
Um estudo recente publicado no Developmental Cognitive Neuroscience revelou algo intrigante para quem acompanha as mudanças nas práticas parentais. Foi observada uma ligação direta entre estilos parentais mais controladores e níveis mais baixos de resiliência psicológica. Por outro lado, famílias que concediam espaço para autonomia viam as crianças desenvolverem melhor essa capacidade de lidar com os erros e desafios da vida.
Claro que nada disto quer dizer que devemos regressar a uma infância sem apoio emocional. Muito pelo contrário, hoje sabemos que um equilíbrio entre proteção e liberdade é essencial para que a criança se sinta segura e, ao mesmo tempo, capaz. Este equilíbrio é, para mim, um convite precioso a pensar nas rotinas de hoje, sempre que o impulso de proteger demais nos impeça de deixar o nosso filho resolver uma situação aparentemente simples.
Experimentar: aplicar a sabedoria dos anos 60 e 70 no presente
Adaptar a riqueza emocional daquela época ao mundo de 2026 exige delicadeza. Não se trata de romanticizar, nem de tornar os nossos filhos mais “duros” ou resilientes a qualquer custo. É mais que isso — trata-se de confiar na capacidade que todas as crianças têm de aprender enfrentando dificuldades proporcionais às suas idades. Podemos começar por abandonar a ansiedade imediata que leva a intervir em cada pequeno desconforto e a criar espaço para que aprendam e cresçam.
Algumas práticas que me têm ajudado, e que tantas amigas também partilham, incluem:
- Dar responsabilidades claras, como pequenas tarefas domésticas;
- Evitar intervir logo que um desentendimento surge entre irmãos;
- Deixar que a criança espere a sua vez, mesmo que por vezes se queixe;
- Ensinar estratégias para acalmar antes de procurar uma solução;
- Valorizar conquistas que surgem do esforço e da persistência.
Assim, ao redesenharmos o projeto de uma infância mais autónoma e responsável, estamos certamente a oferecer aos nossos filhos uma resiliência que não depende de salas fechadas, agendas apertadas ou aparelhos eletrónicos para preenchimento constante, mas sim de vivências reais e sólidas, capazes de os preparar melhor para os desafios da vida.